Carta da Inteligência,
Sonhos de um Louco.
Gustavo D´la Guerre
Sonho Perdido na Parada de Ônibus
Grito teu nome em todos os cantos da minha alma e espero resposta a cada minuto que passa. Vejo os olhares que descrevem minha loucura e sinto um leve toque dos teus lábios.
Acordo sonolento e irritado. Era sonho. Puro sonho. A tristeza invade porque tudo que fiz foi sonhar.
Tento lembrar cada detalhe enquanto tomo café. Nada. Apenas a sensação angustiante de não lembrar. Mas o que resta senão sonhar? Todo ser humano sonha. Com amor, com dinheiro, com algo.
Nada mais me importa. Faz 10 anos que vivo só e tudo parece um sonho do qual não quero acordar. Ou será pesadelo?
E se eu fosse outra pessoa? E se minha vida fosse apenas sonho de alguém que dorme a sono largo?
Claro que não.
Certo é que esta vida precisa mudar ou acabo metendo uma bala na cabeça. Como viver assim? Sozinho e triste.
Chega sexta-feira. Começa outro fim de semana. E começa minha procura para saciar o desejo insano de não ficar sozinho. Mas sempre a mesma coisa: bebo, me alegro, e no final tudo que fiz foi encher a cara e sonhar um sonho absurdo.
Acordo no sábado mais triste que nunca. A mesma caçada infrutífera numa noite sem fim.
E toda vez me pergunto: será que um dia encontro alguém? Será que serei respeitado? Ou é loucura insistir num assunto sem jeito?
Pros diabos. Não quero nem espero complacência. Sei que sou inteligente e atraente. Então por que estou sozinho?
A noite se aproxima e mais uma vez meu instinto de caçador me empurra para a noite sem fim nem finalidade. Que luta desigual.
Volto para casa cansado pensando que poderia ser diferente.
Ah, tempos antigos que tanto me alegraram e já foram. Não deixaram sequer uma migalha. Por que me abandonaram sozinho, sem amor e consideração?
Mas esperem. Eu volto. Não pensem que estou morto. Apenas descanso e me refaço da batalha que tanto me consumiu e ainda consome meus pensamentos.
Ah, tempos antigos que tanto me alegraram e já foram. Choro de saudades de uma pessoa que nunca conheci e que sequer vou conhecer.
Por Deus, será que minha vida foi em vão? Ou sou apenas um jogador que perdeu tudo, não se conforma, e quer perder mais?
Cada sonho me completa,
Sonho pelo sonho sonhado,
Perco o sonho no embaraço,
E me desfaço em puro sonho e desejo.
Penso: e se tudo fosse diferente? E se eu tivesse tomado as rédeas da minha vida, como teria sido?
Posso imaginar. Ou melhor, sonhar.
Sonho com uma família. Filhos sorridentes. Uma esposa amorosa. Sonho o sonho dos outros que deveria ser meu. E cada vez fica mais claro o que sou.
Ah, tempos idos de glória e amor, por onde fugiram? Ou será que eu escorracei minha vida porta afora para nunca mais viver o sonho do qual nunca deveria ter acordado?
Grito teu nome milhões de vezes. Tento agarrar teu cheiro. Mas tudo que vejo é a mais completa ilusão.
E mesmo assim morro de ciúmes dos teus cabelos, pois eles te enfeitam enquanto estão junto de ti.
Tudo se esvaindo numa parada de ônibus. Num dia qualquer.
Que cruel.
Sonho um sonho perdido
Que choro sem ter sonhado
Pois melhor seria nunca ter merecido
Pois cada sonho me mata de ilusão.
Perdi minha juventude desde que fui roubado dos teus braços. Morri naquele dia. Ingênuo, deixei me levarem.
Agora me resta escrever o que restou de um amor que tanto me rejuvenesce num pedaço velho de papel que encontro jogado no chão.
Escrevo lentamente cada verso que me restava. Canto minha última canção.
E começo a sentir o frio que invade meu corpo.
Será ela? Ou mais uma vez uma brincadeira sem graça?
Não.
O frio invade todo meu corpo. Já não sinto minhas pernas. Minha pena cai ao lado do corpo velho e decrépito que habito.
Logo avisto um rosto conhecido há tanto esquecido. E que tanta alegria me traz.
Parto agora para nunca voltar.
E lembro do meu texto. Meu último grito de amor.
Morro a cada sonhar
Pois sonho nunca sonhar
Pior foi te beijar naquela noite,
Pois sem luz morro a te esperar.
A loucura e a escuridão chegam.
Tudo numa parada de ônibus.
